sábado, 26 de fevereiro de 2011

Crítica - I'm Still Here

Ninguém aparentemente sabia, mas a virada na vida de Joaquin Phoenix em meados de 2008, quando revelou a todos que estava abandonando a carreira de ator para se tornar um cantor de rap, era apenas a execução de um dos seus papeis e, de longe, um dos mais ousados. Phoenix decidi ir mais longe do que todos foram quando o assunto é o gênero "mockumentary" (documentários falsos de eventos fictícios) e, em parceria com seu amigo Casey Affleck, faz um retrato da sua paulatina degradação pessoal culminada na desctruição de sua imagem e carreira.

Os eventos do filme chocam até mesmo os previamente avisados de seu conteúdo e deixa incrédulo os desavisados sobre a veracidade do conteúdo. Phoenix deixa a barba e o cabelo crescerem e começa a compor e cantar rap. Mas suas performances são tão ruins que não demora para que ele vire motivo de piada na imprensa. As portas então começam a se fechar para ele, ao mesmo tempo em que suas ações ficam cada vez mais reprováveis. Phoenix quase em todas as cenas aparece fumando maconha, cheira cocaína, transa com prostitutas e fala muita bobagem. Sem falar no modo estúpido em que passa a cumprir sua agenda. No lançamento de seu último filme, Os Amantes (Two Lovers), ele trata mal os reporteres, não responde as perguntas e faz de quase todas as suas ações uma completa falta de educação. Mas talvez o ponto alto dessa estupidez seja quando recusa o papel que Ben Stiller oferece em O Solteirão. O ator foi tão destratado que é impossível acreditar que não sabia do projeto antes.

De um modo marginal, o filme consegue tocar em temas profundos, como coragem de correr atrás dos sonhos, por mais diferentes que eles possam ser, e ser original em meio a um mundo de convenções e falsidade, da maneira que Hollywood é. Pena que o invólucro dessa mensagem seja tão corrompido pela depravação pessoal do personagem, de modo que o que há de bom no filme seja colocado em segundo plano. 

Phoenix e Affleck precisaram de muita coragem para realizar esse projeto, que dividiu opiniões sobre a genialidade ou a leviandade de ambos. Talvez a maior intenção do projeto é discutir sobre em que ponto personagem e ator se entrelaçam e se relacionam. Resolvo não ser tão radical quanto a minha análise e reconheço que houve sim um propósito na produção, pois rendeu cena de especial relevo, como a final em que Phoenix é submerso pelo rio em que caminhava. Essa é uma cena emblemática, pois representa a decida ao inferno do personagem (ou do próprio?) Joaquin Phoenix, sendo engolido pelo próprio ego.

Hollywood que parece não ter gostado da brincadeira de Phoenix e Affleck, pois além de ter sido um fracasso nas bilheterias, os dois vão passar por um bom período na geladeira sem fazer nem um projeto relevante. Ambos já esperavam por isso.


I'M STILL HERE ***
(idem, EUA, 2010, 1h48, Drama)
Direção: Casey Affleck
Com Joanquin Phoenix.
Cotação: REGULAR
Cotação IMDB: 6,1

0 comentários: