Talvez a grande expectativa criada devido ao fato do filme ter sido agraciado com o Oscar de melhor filme tenha prejudicado a minha percepção ao julgar que ele possuísse qualidades que de fato não possui. A grande verdade é que O Discurso do Rei não é um grande filme. Certamente foi feito e vendido como se fosse. Repleto das qualidades que são demasiadamente apreciadas pelos críticos (não somente os da Academia, mas também dos que compõe a banca de outros festivais importantes), o filme sofre do mal de parecer afetado, convencido das qualidades que foi projetado para ter. Mas dentro desse invólucro composto por direção de arte, fotografia, trilha sonora e temática clássica, está um roteiro por demais frágil que, apesar de alguns ótimos momentos, no fundo não passa do batido "superando limites pessoais".
Com núcleos dramáticos quase que divididos (mas que no final se unem), O Discurso do Rei por um lado retrata o drama sofrido pelo futuro rei inglês George VI (Colin Firth), que sofre de gagueira. O tratamento derradeiro, depois de muitos insucessos com outros médicos, começa quando sua mulher (Helena Bonhan Carter) conhece Lionel Longue (Geoffrey Rush), especialista que promete a cura ao seu marido. Por outro lado, o filme acompanha o fim do reinado do rei George V e a posterior disputa pela sucessão entre o príncipe gago e seu irmão (Guy Pearce).
Tom Hooper foi extremamente contido na condução da sua câmera. Não se pode considerar que os enquadramentos propositalmente assimétricos (como se destacasse mais a parede por trás do sofá e não Colin Firth sentado sobre ele no canto da tela) é o que há de mais novo na cinematografia recente. Na verdade, a intenção de Hooper foi mesmo permanecer fiel à cartilha e filmar uma produção que facilmente pode ser confundida com uma da década de 50, de tão formal é a sua estética.
O que sustenta o filme de verdade, que faz com que as quase duas horas de projeção se justifiquem e valham a pena é a atuação irrepreensível de Colin Firth, ganhadora do merecido Oscar de melhor ator. Sem a presença de Firth o filme perderia quase toda a força que possui e lançaria o filme de vez na vala comum. É nesse ponto se encontra o maior mérito de Hooper, pois ao deixar nas mãos de Firth e Geoffrey Rush (que também está ótimo) o filme ganha a profundidade que o roteiro não conseguiu transmitir. Quando os dois estão juntos na tela, o filme brilha. Felizmente o roteiro de David Seidler fornece os diálogos à altura do desempenho da dupla.
Ao afirmar que a parte técnica do filme é tudo pautado no que se entende por clássico, não quer dizer que isso seja necessariamente ruim (a trilha sonora em certos momentos impressiona), mas nesse caso tudo me pareceu demasiadamente artificial, ainda assim do gosto da Academia que contemplou o filme com os principais prêmios: filme, diretor, roteiro original e ator.
O DISCURSO DO REI ***
(The King's Speech, Reino Unido/EUA/Austrália, 2010, 1h50, Drama)
Diretor: Tom Hooper
Com Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonhan Carter, Guy Pearce, Timothy Spall e Derek Jacobi.
Cotação: REGULAR

1 comentários:
Achei o filme ótimo, delicioso de se assistir.
http://cinelupinha.blogspot.com/
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